sábado, 27 de outubro de 2007

Lygia Fagundes Telles - A continuação

“A menina sorriu. E abriu a boca em forma de pirâmide.
- Ah, minha filha linda – disse Afonso. Voltou-se para Vírginia: - Dentro em breve ela aprenderá grego e latim, quero que seja a mulher mais culta da terra.
- Coitadinha... – lamentou Otávia enchendo novamente a colher. Delicadamente introduziu-a na boca da criança. – Vocês já imaginaram a maravilha que seria o mundo se ao menos uma quinta parte desses gênios se realizasse na maioridade? Há milênios que os pais se debruçam como fadas sobre os berços e fazem profecias fabulosas. E há milênios a terra prossegue corroída pelo germe humano, que é sempre tão vulgar e medíocre quanto o da geração anterior. Está claro que a gente concorda sempre com os prognósticos sobre os infantes – acrescentou passando o guardanapo no queixo da menina. Deu uma risadinha. – Mas é por gentileza, não é, nenê?”
(p. 122-123)

“Ouça Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que encontramos as melhores coisas. A música – acrescentou detendo-se ao ouvir os sons de um piano num exercício ingênuo. – Este céu que nem promete chuva – prosseguiu atirando a cabeça para trás. – Aquela estrelinha que está nascendo ali...está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos, nem os pastores nem os marinheiros perdidos...Não fez nada, apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza”.
(p. 135)

““Feliz ano novo. Pois sim!...”, sussurrou Virgìnia ao apertar a campainha do apartamento de Letícia. Difícil encontrar um voto mais ocioso, mais formal. Podia se desejar uma tarde feliz, um dia inteiro feliz, no máximo. Mas um ano? Felizes, só mesmo os egoístas, os alienados como Otávia.”
(p. 145)

“O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa”.
(p. 149)

“Sim, o mais dolorido é que Otávia sabia. E não fazia nada porque não havia nada a fazer, deixava-se apenas levar, desligada e inerte como aquelas folhas que o vento arrasta. Para onde?”
(p. 195)

“Que pensamentos o alimentavam naquele longo abandono?”
(p. 195)

“Uma grande indiferença, desde que tranqüilidade e indiferença, no fundo, significam a mesma coisa”.
(p. 199-200)


LIVRO CIRANDA DE PEDRA - 1954

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