sábado, 20 de outubro de 2007

Lygia Fagundes Telles

" - Que é que você entende por morrer?
A pergunta fê-la vacilar. Levou o polegar à boca e ficou passando a ponta da língua na unha roída. morrer, morrer... Pensou em Isabel, a irmã gêmea de Margarida. Tinha morrido um mês depois da primeira comunhão e todas as alunas do catecismo fora vê-la. Estava vestida de branco, com coroa de lírios de pano no alto da cabeça e um ramo de jasmins na mão. Parecia mais branca e tão satisfeita no seu caixão cor-de-rosa, que ninguém tinha votade de chorar ao vê-la assim. "É a vontade da de Deus", dizia a mãe assoando-se no lenço limpo, nesse dia tudo pareceu-lhe mais limpo e mais calmo naquele porão. Também a morte lhe pareceu uma coisa clara. Simples. Era a vontade de Deus. " E essa é uma vontade forte", pensou. Mas havia a andorinha que sepultara certa manhã numa caixa de sapatos, debaixo do pessegueiro: desenterrara-a alguns dias depois para ver o que acontecera. Aquilo era a morte."

(Ciranda de Pedra - Lygia Fagundes Telles, p. 61, 1954)

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