segunda-feira, 6 de abril de 2009
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Andrei Tarkovski
(p.11)
“Você caminha pela rua, e os seus olhos se encontram com os de alguém que passou ao seu lado. Houve algo de surpreendente nesse olhar, que lhe transmitiu um sentimento de apreensão. A pessoa que passou influenciou-o psicologicamente, deixando-o num estado de espírito específico.
Se você se limitar a reproduzir com precisão mecânica as condições que se deu tal encontro, vestindo os atores e escolhendo o local da filmagem com exatidão de um documentário, não conseguirá obter na seqüência fílmica a mesma sensação que teve quando do encontro na rua. O que terá acontecido é que ao filmar a cena do encontro, você não levou em conta o fator psicológico, o estado mental que permitiu que o olhar do estranho o afetasse daquela forma específica. Portanto, para que o público se emocione com o olhar do estranho, da mesma maneira que você na ocasião, é preciso prepará-lo, criando um estado de espírito semelhante ao seu no momento em que aconteceu o encontro”.
(p. 22)
“A verdadeira linguagem artística fundamenta-se sempre numa ligação orgânica entre idéia e forma”.
(p. 26)
“(...) se um autor se deixar comover pela paisagem escolhida, se esta lhe evocar recordações e sugerir associações, ainda que subjetivas, isso, por sua vez, provocará no público uma emoção específica”.
(p. 28)
“Há alguns aspectos da vida humana que só podem ser reproduzidos fielmente pela poesia. Mas é aí que muitos diretores costumam recorrer a truques convencionais, em vez de fazerem uso da lógica poética. Estou pensando no ilusionismo e nos efeitos extraordinários usados em sonhos, lembranças e fantasias. É por demais comum no cinema que os sonhos deixem de ser um fenômeno concreto da existência e se transformem numa coleção de antiquados truques cinematográficos”.
(p. 31)
“É muito comum que uma grande obra nasça dos esforços feitos pelo artista no sentindo e superar seus pontos fracos”.
(p. 45)
“Ao criar uma imagem ele subordina seu pensamento, que se torna insignificante diante daquela imagem do mundo emocionalmente percebida, que lhe surgiu como revelação. Pois afinal, o pensamento é efêmero, ao passo que a imagem é absoluta”.
(p.45)
“É errado dizer que um artista “procura” o seu tema. Este, na verdade, amadurece dentro dele como um fruto, e começa a exigir uma forma de expressão. É como um parto...O poeta não tem nada de que se orgulhar: ele não é o senhor da situação, mas o servidor. A obra criativa é a sua única forma possível de existência, e cada uma das suas obras é como um gesto que ele não tem poder de anular”.
(p. 49)
“Ler um bom livro é tão difícil como escrevê-lo”. (citando Goethe)
(p. 50)
“Em sua maior parte, as pessoas aprenderam a ler para atenderem a alguma mesquinha convivência, assim como aprenderam a fazer contas para manterem em dia a sua contabilidade, sem serem enganadas em seus negócios; quanto a ler como um nobre exercício intelectual, trata-se de algo sobre o qual pouco ou nada sabem”. (citando Thoreua)
(p. 51)
“Os símbolos são inexprimíveis e inexplicáveis, e, diante da totalidade do seu significado secreto, somos impotentes”. (citando Vyacheslav Ivanov)
(p. 53)
(TARKOVSKI, Andrei – Escupir o tempo, SP, 2ª ed., Martins Fontes, 1998)
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Michelangelo Antonioni
(DUCAN, Paul – Michelangelo Antonioni - Filmografia Completa, SP, Taschen Do Brasil , 2001)
quinta-feira, 12 de junho de 2008
NIETZSCHE - A Má Consciência
Acrescente-se a isto que os antigos instintos não haviam renunciado de vez às suas exigências. Mas era difícil e amiúde impossível satisfazê-las; era preciso procurar satisfações novas e subterrâneas. Os instintos sob a enorme força repressiva, volvem para dentro, a isto se chama interiorização do homem; assim de desenvolve o que mais tarde se há-de chamar «alma».
Aquele pequeno mundo interior vai-se desenvolvendo e ampliando à medida que a exteriorização do homem acha obstáculos. As formidáveis barreiras que a organização social construía para se defender contra os antigos instintos de liberdade e, em primeiro lugar, a barreira do castigo, conseguiram que todos os instintos do homem selvagem, livre e vagabundo, se voltassem contra o homem interior.
A ira, a crueldade, a necessidade de perseguir, tudo isto se dirigia contra o possuidor de tais instintos; eis a origem da «má consciência». O homem que, por falta de resistência e de inimigos exteriores, colhido no potro da regularidade dos costumes, se despedaçava com impaciência, se perseguia, se devorava, se amedrontava e se maltratava a ele mesmo; este animal a quem se quer domesticar, mas que se fere nos ferros da sua jaula; este ser a quem as privações fazem enlanguescer na nostalgia do deserto e que fatalmente devia achar em si mesmo um campo de aventuras, um jardim de suplícios, uma região perigosa e incerta; este louco, este cativo, de aspirações impossíveis, teve de inventar a «má consciência».
Então veio ao mundo a maior e mais perigosa de todas as doenças, o homem doente de si mesmo foi consequência de um divórcio violento com o passado animal, de um salto para novas situações, para novas condições de existência, de uma declaração de guerra contra os antigos instintos que antes constituíam a sua força e o seu temível carácter.
(NIETZSCHE, Friedrich – A Genealogia da Moral, SP, Cia das letras, 2003)
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Saramago
p.15
"Decidi com meus botões que iria tornar-me invisível até que a noite acabasse de se fechar, mas a tia Maria elvira percebeu a manobra e, quando eu me dispunha a perder-me pelos arredores, disse-me no tom mais tranquilo do mundo: "À hora de ele vir do trabalho, tu sentas-te na soleira da porta e ficas à espera. Se ele te quiser bater, eu cá estou, mas tu não arredas pé." estas são boas lições, das que vão durar toda a vida, das que nos agarram pelos ombros quando estamos prestes a ceder."
p. 30
"Mas a imagem que não me larga nessa hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte."
p. 120
"(...) abreviar o caminho (...)
p.137
(SARAMAGO, José – As Pequenas Memórias, SP, Cia das letras, 2006)
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Friedrich Engels
Engels descreve no prefácio que a sociedade era comandada pelas mulheres e cita um conto mitológico que exemplifica como a sociedade deixou de ser matriarcal para de tornar matriarcal.
boa leitura
“O estudo da história da família começa, de fato, em 1861, com o Direito Materno de Bachofen. Nesse livro, o autor formula as seguintes teses: 1 – primitivamente, os seres humanos viveram em promiscuidade sexual; 2 – estas relações excluíam toda possibilidade de estabelecer, com certeza, a paternidade, pelo que a filiação só podia ser contada por linha feminina, segundo o direitomaterno, e isso se deu em todos os povos antigos; 3 – em conseqüência desse fato, as mulheres, como mães, como únicos progenitores conhecidos da javem geração, gozavam de grande apreço e respeito, chegando de acordo com Bachofen, ao domínio feminino absoluto (...)”.
“Dessa maneira, pois para Bachofen, não foi o desenvolvimento das condições reais de existência dos homens, mas o reflexo religioso dessas condições no cérebro deles, o que determinou as transformações históricas na situação social recíproca do homem e da mulher. Dentro de seu ponto-de-vista, Bachofen interpreta a Oréstia de Ésquilo como um quadro dramático de luta entre o direito materno agonizante e o direito paterno, que nasceu e conseguiu vitória sobre o primeiro, na época das epopéias. Levada por sua paixão por Egisto, seu amante, Clitemnestra mata seu marido Agamenon, quando este regressava da guerra de Tróia; mas Orestes, filho dela e de Agamenon, vinga seu pai, matando a mãe. Isso faz com que ele seja perseguido por Erínias, seres demoníacos que protegem o direito materno, de acordo com o qual matrocídio é o mais grave e inperdoável de todos os crimes. Apolo, no entanto, que, por intermédio de seu oráculo, havia incitado Orestes a matar sua mãe, e Palas Atena, que intervém como juiz (ambas as divindades representam aqui o direito paterno) protegem Orestes. Atena ouve ambas as partes. Todo o litígio está resumido na discussão de um duplo crime ao matar quem era seu marido e pai de seu filho. Por que as Erínias o perseguiam, por que o visavam, em especial, se ela, a morta, tinha sido muito mais culpada? A resposta é surpreendente:
- “Ela não estava unida por vínculos de sangue ao homem que assassinou”.
O assassinato de uma pessoa com a qual não houvesse vinculação de sangue, mesmo que fosse o marido da assassina, era falta que podia ser expiada – e não concernia, absolutamente, as Erínias. A missão delas era a de ounir o homicídio entre consangüíneos, e o pior e mais imperdoável dos crimes segundo o direito materno: matricídio. Nesse ponto, contudo, intervém Apolo, defensor de Orestes, e em seguida Atena submete o caso ao Areópago – o Tribunal do Júri ateniense; há o mesmo número de votos pela condenação e pela absolvição. Então, Atena, como presidente do tribunal, vota em favor de Orestes e o absolve. O direito paterno vence o materno. Os “deuses da jovem geração”, como os chamam as próprias Erínias, são muito mais poderosos que elas, e só lhes resta resignarem-se e, finalmente, também, elas convencidas, porem-se ao serviço do novo estado das coisas”.
(ENGELS, Friedrich – A Origem da família, da propriedade privada e do estado, p.8, RJ, Bertrand Brasil, 1995)
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Eduardo Galeano
p. 20
"(...) killing instinct, o instinto assassino, é uma virtude humana quando serve para que as grandes empresas façam a digestão das pequenas empresas e para que os países fortes devorem os países fracos, mas é prova de bestilidade quando um pobre-diabo sem trabalho sai a buscar comida com uma faca na mão".
p. 06
"Até vinte ou trinta naos passados a pobreza era o fruto da injustiça, denunciada pela esquerda, admitida pelo centro e raras vezes negada pela direita. Mudaram muito os tempos, em tão pouco tempo: agora a pobreza é o justo castigo que a ineficiência merece. A pobreza sempre pode merecer compaixão, mas já não porvoca indignação: há pobres pela lei do jogo ou fatalidade do destino. Tampouco a violência é filha da injustiça. A linguagem dominante, imagens e palavras produzidas em série, atua quase sempre a serviço de um sistema de recompensas e castigos, que concebe a vida como um a impiedosa disputa entre poucos ganhadores e muitos perdedores nascidos para perder. A violência se manisfesta, em geral, como fruto da má conduta de maus perdedores, os numerosos e perigosos inadaptados sociais gerados pelos bairros pobres e pelos países pobres. A violência está em sua natureza. ela corresponde, como a pobreza,à ordem natural, à ordem biológica ou, talvez, zoológica: assim eles são, assim foram e assim serão. A injustiçafonte do direito que perpetua, é hoje mais injusta do que nunca no sul do mundo, no norte também, mas tem pouca ou nenhuma existencia para os grandes meios de comunicação que fabricam a opinião publica em escala universal".
p. 32
"O código moral do fim do milênio não condena a injustiça, condena o fracasso".
p. 33
(De Pernas Pro Ar - A escola do mundo do avesso - Eduardo Galeano - SP - 1999 Ed. LePM)