quarta-feira, 2 de julho de 2008

Andrei Tarkovski

“Algumas obras possuem uma grande unidade no que diz respeito aos elementos que a constituem, e a imagem literária que nelas se manifesta é original e precisa. Os personagens são de uma profundidade insondável, a composição tem uma extraordinária capacidade de encantamento, e o livro é indivisível. Ao longo das suas páginas, delineia-se a personalidade única e extraordinária do autor. Livros assim são obras-primas, e filmá-los é algo que só pode ocorrer a alguém que, de fato, sinta um grande desprezo pelo cinema e pela prosa de boa qualidade”.
(p.11)

“Você caminha pela rua, e os seus olhos se encontram com os de alguém que passou ao seu lado. Houve algo de surpreendente nesse olhar, que lhe transmitiu um sentimento de apreensão. A pessoa que passou influenciou-o psicologicamente, deixando-o num estado de espírito específico.
Se você se limitar a reproduzir com precisão mecânica as condições que se deu tal encontro, vestindo os atores e escolhendo o local da filmagem com exatidão de um documentário, não conseguirá obter na seqüência fílmica a mesma sensação que teve quando do encontro na rua. O que terá acontecido é que ao filmar a cena do encontro, você não levou em conta o fator psicológico, o estado mental que permitiu que o olhar do estranho o afetasse daquela forma específica. Portanto, para que o público se emocione com o olhar do estranho, da mesma maneira que você na ocasião, é preciso prepará-lo, criando um estado de espírito semelhante ao seu no momento em que aconteceu o encontro”.
(p. 22)

“A verdadeira linguagem artística fundamenta-se sempre numa ligação orgânica entre idéia e forma”.
(p. 26)

“(...) se um autor se deixar comover pela paisagem escolhida, se esta lhe evocar recordações e sugerir associações, ainda que subjetivas, isso, por sua vez, provocará no público uma emoção específica”.
(p. 28)

“Há alguns aspectos da vida humana que só podem ser reproduzidos fielmente pela poesia. Mas é aí que muitos diretores costumam recorrer a truques convencionais, em vez de fazerem uso da lógica poética. Estou pensando no ilusionismo e nos efeitos extraordinários usados em sonhos, lembranças e fantasias. É por demais comum no cinema que os sonhos deixem de ser um fenômeno concreto da existência e se transformem numa coleção de antiquados truques cinematográficos”.
(p. 31)

“É muito comum que uma grande obra nasça dos esforços feitos pelo artista no sentindo e superar seus pontos fracos”.
(p. 45)

“Ao criar uma imagem ele subordina seu pensamento, que se torna insignificante diante daquela imagem do mundo emocionalmente percebida, que lhe surgiu como revelação. Pois afinal, o pensamento é efêmero, ao passo que a imagem é absoluta”.
(p.45)

“É errado dizer que um artista “procura” o seu tema. Este, na verdade, amadurece dentro dele como um fruto, e começa a exigir uma forma de expressão. É como um parto...O poeta não tem nada de que se orgulhar: ele não é o senhor da situação, mas o servidor. A obra criativa é a sua única forma possível de existência, e cada uma das suas obras é como um gesto que ele não tem poder de anular”.
(p. 49)

“Ler um bom livro é tão difícil como escrevê-lo”. (citando Goethe)
(p. 50)

“Em sua maior parte, as pessoas aprenderam a ler para atenderem a alguma mesquinha convivência, assim como aprenderam a fazer contas para manterem em dia a sua contabilidade, sem serem enganadas em seus negócios; quanto a ler como um nobre exercício intelectual, trata-se de algo sobre o qual pouco ou nada sabem”. (citando Thoreua)
(p. 51)

“Os símbolos são inexprimíveis e inexplicáveis, e, diante da totalidade do seu significado secreto, somos impotentes”. (citando Vyacheslav Ivanov)
(p. 53)



(TARKOVSKI, Andrei – Escupir o tempo, SP, 2ª ed., Martins Fontes, 1998)

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