“Algumas obras possuem uma grande unidade no que diz respeito aos elementos que a constituem, e a imagem literária que nelas se manifesta é original e precisa. Os personagens são de uma profundidade insondável, a composição tem uma extraordinária capacidade de encantamento, e o livro é indivisível. Ao longo das suas páginas, delineia-se a personalidade única e extraordinária do autor. Livros assim são obras-primas, e filmá-los é algo que só pode ocorrer a alguém que, de fato, sinta um grande desprezo pelo cinema e pela prosa de boa qualidade”.
(p.11)
“Você caminha pela rua, e os seus olhos se encontram com os de alguém que passou ao seu lado. Houve algo de surpreendente nesse olhar, que lhe transmitiu um sentimento de apreensão. A pessoa que passou influenciou-o psicologicamente, deixando-o num estado de espírito específico.
Se você se limitar a reproduzir com precisão mecânica as condições que se deu tal encontro, vestindo os atores e escolhendo o local da filmagem com exatidão de um documentário, não conseguirá obter na seqüência fílmica a mesma sensação que teve quando do encontro na rua. O que terá acontecido é que ao filmar a cena do encontro, você não levou em conta o fator psicológico, o estado mental que permitiu que o olhar do estranho o afetasse daquela forma específica. Portanto, para que o público se emocione com o olhar do estranho, da mesma maneira que você na ocasião, é preciso prepará-lo, criando um estado de espírito semelhante ao seu no momento em que aconteceu o encontro”.
(p. 22)
“A verdadeira linguagem artística fundamenta-se sempre numa ligação orgânica entre idéia e forma”.
(p. 26)
“(...) se um autor se deixar comover pela paisagem escolhida, se esta lhe evocar recordações e sugerir associações, ainda que subjetivas, isso, por sua vez, provocará no público uma emoção específica”.
(p. 28)
“Há alguns aspectos da vida humana que só podem ser reproduzidos fielmente pela poesia. Mas é aí que muitos diretores costumam recorrer a truques convencionais, em vez de fazerem uso da lógica poética. Estou pensando no ilusionismo e nos efeitos extraordinários usados em sonhos, lembranças e fantasias. É por demais comum no cinema que os sonhos deixem de ser um fenômeno concreto da existência e se transformem numa coleção de antiquados truques cinematográficos”.
(p. 31)
“É muito comum que uma grande obra nasça dos esforços feitos pelo artista no sentindo e superar seus pontos fracos”.
(p. 45)
“Ao criar uma imagem ele subordina seu pensamento, que se torna insignificante diante daquela imagem do mundo emocionalmente percebida, que lhe surgiu como revelação. Pois afinal, o pensamento é efêmero, ao passo que a imagem é absoluta”.
(p.45)
“É errado dizer que um artista “procura” o seu tema. Este, na verdade, amadurece dentro dele como um fruto, e começa a exigir uma forma de expressão. É como um parto...O poeta não tem nada de que se orgulhar: ele não é o senhor da situação, mas o servidor. A obra criativa é a sua única forma possível de existência, e cada uma das suas obras é como um gesto que ele não tem poder de anular”.
(p. 49)
“Ler um bom livro é tão difícil como escrevê-lo”. (citando Goethe)
(p. 50)
“Em sua maior parte, as pessoas aprenderam a ler para atenderem a alguma mesquinha convivência, assim como aprenderam a fazer contas para manterem em dia a sua contabilidade, sem serem enganadas em seus negócios; quanto a ler como um nobre exercício intelectual, trata-se de algo sobre o qual pouco ou nada sabem”. (citando Thoreua)
(p. 51)
“Os símbolos são inexprimíveis e inexplicáveis, e, diante da totalidade do seu significado secreto, somos impotentes”. (citando Vyacheslav Ivanov)
(p. 53)
(TARKOVSKI, Andrei – Escupir o tempo, SP, 2ª ed., Martins Fontes, 1998)
quarta-feira, 2 de julho de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Michelangelo Antonioni
"(...) não importa as diferenças sociais, o leque de sofrimentos humanos é um só. As carências emocionais (aquilo de que nos padece num nível mais profundo) nos unem muito mais do que nos separam. E apenas a arte nos proporciona esse lampejo de entendimento." (p. 54)
(DUCAN, Paul – Michelangelo Antonioni - Filmografia Completa, SP, Taschen Do Brasil , 2001)
(DUCAN, Paul – Michelangelo Antonioni - Filmografia Completa, SP, Taschen Do Brasil , 2001)
quinta-feira, 12 de junho de 2008
NIETZSCHE - A Má Consciência
A má consciência é para mim o estado mórbido em que devia ter caído o homem quando sofreu a transformação mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado à argola da sociedade e da paz. À maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados à vida selvagem, à guerra, às correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. Forçavam-nos a irem pelo seu pé, a «levarem-se a si mesmos», quando até então os havia levado a água: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as funções mais simples; neste mundo novo e desconhecido não tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente falíveis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos à sua «consciência», ao seu órgão mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgraça tão grande, mal-estar tão horrível!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos não haviam renunciado de vez às suas exigências. Mas era difícil e amiúde impossível satisfazê-las; era preciso procurar satisfações novas e subterrâneas. Os instintos sob a enorme força repressiva, volvem para dentro, a isto se chama interiorização do homem; assim de desenvolve o que mais tarde se há-de chamar «alma».
Aquele pequeno mundo interior vai-se desenvolvendo e ampliando à medida que a exteriorização do homem acha obstáculos. As formidáveis barreiras que a organização social construía para se defender contra os antigos instintos de liberdade e, em primeiro lugar, a barreira do castigo, conseguiram que todos os instintos do homem selvagem, livre e vagabundo, se voltassem contra o homem interior.
A ira, a crueldade, a necessidade de perseguir, tudo isto se dirigia contra o possuidor de tais instintos; eis a origem da «má consciência». O homem que, por falta de resistência e de inimigos exteriores, colhido no potro da regularidade dos costumes, se despedaçava com impaciência, se perseguia, se devorava, se amedrontava e se maltratava a ele mesmo; este animal a quem se quer domesticar, mas que se fere nos ferros da sua jaula; este ser a quem as privações fazem enlanguescer na nostalgia do deserto e que fatalmente devia achar em si mesmo um campo de aventuras, um jardim de suplícios, uma região perigosa e incerta; este louco, este cativo, de aspirações impossíveis, teve de inventar a «má consciência».
Então veio ao mundo a maior e mais perigosa de todas as doenças, o homem doente de si mesmo foi consequência de um divórcio violento com o passado animal, de um salto para novas situações, para novas condições de existência, de uma declaração de guerra contra os antigos instintos que antes constituíam a sua força e o seu temível carácter.
(NIETZSCHE, Friedrich – A Genealogia da Moral, SP, Cia das letras, 2003)
Acrescente-se a isto que os antigos instintos não haviam renunciado de vez às suas exigências. Mas era difícil e amiúde impossível satisfazê-las; era preciso procurar satisfações novas e subterrâneas. Os instintos sob a enorme força repressiva, volvem para dentro, a isto se chama interiorização do homem; assim de desenvolve o que mais tarde se há-de chamar «alma».
Aquele pequeno mundo interior vai-se desenvolvendo e ampliando à medida que a exteriorização do homem acha obstáculos. As formidáveis barreiras que a organização social construía para se defender contra os antigos instintos de liberdade e, em primeiro lugar, a barreira do castigo, conseguiram que todos os instintos do homem selvagem, livre e vagabundo, se voltassem contra o homem interior.
A ira, a crueldade, a necessidade de perseguir, tudo isto se dirigia contra o possuidor de tais instintos; eis a origem da «má consciência». O homem que, por falta de resistência e de inimigos exteriores, colhido no potro da regularidade dos costumes, se despedaçava com impaciência, se perseguia, se devorava, se amedrontava e se maltratava a ele mesmo; este animal a quem se quer domesticar, mas que se fere nos ferros da sua jaula; este ser a quem as privações fazem enlanguescer na nostalgia do deserto e que fatalmente devia achar em si mesmo um campo de aventuras, um jardim de suplícios, uma região perigosa e incerta; este louco, este cativo, de aspirações impossíveis, teve de inventar a «má consciência».
Então veio ao mundo a maior e mais perigosa de todas as doenças, o homem doente de si mesmo foi consequência de um divórcio violento com o passado animal, de um salto para novas situações, para novas condições de existência, de uma declaração de guerra contra os antigos instintos que antes constituíam a sua força e o seu temível carácter.
(NIETZSCHE, Friedrich – A Genealogia da Moral, SP, Cia das letras, 2003)
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Saramago
"Não se sabe tudo, nunca se sabe tudo, mas há horas em que somos capazes de acreditar que sim, talvez porque nesse momento nada mais nos podia caber na alma, na consciência, na mente, naquilo que se queira chamar ao que nos vai fazendo mais ou menos humanos".
p.15
"Decidi com meus botões que iria tornar-me invisível até que a noite acabasse de se fechar, mas a tia Maria elvira percebeu a manobra e, quando eu me dispunha a perder-me pelos arredores, disse-me no tom mais tranquilo do mundo: "À hora de ele vir do trabalho, tu sentas-te na soleira da porta e ficas à espera. Se ele te quiser bater, eu cá estou, mas tu não arredas pé." estas são boas lições, das que vão durar toda a vida, das que nos agarram pelos ombros quando estamos prestes a ceder."
p. 30
"Mas a imagem que não me larga nessa hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte."
p. 120
"(...) abreviar o caminho (...)
p.137
(SARAMAGO, José – As Pequenas Memórias, SP, Cia das letras, 2006)
p.15
"Decidi com meus botões que iria tornar-me invisível até que a noite acabasse de se fechar, mas a tia Maria elvira percebeu a manobra e, quando eu me dispunha a perder-me pelos arredores, disse-me no tom mais tranquilo do mundo: "À hora de ele vir do trabalho, tu sentas-te na soleira da porta e ficas à espera. Se ele te quiser bater, eu cá estou, mas tu não arredas pé." estas são boas lições, das que vão durar toda a vida, das que nos agarram pelos ombros quando estamos prestes a ceder."
p. 30
"Mas a imagem que não me larga nessa hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte."
p. 120
"(...) abreviar o caminho (...)
p.137
(SARAMAGO, José – As Pequenas Memórias, SP, Cia das letras, 2006)
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