quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Friedrich Engels

Engels descreve no prefácio que a sociedade era comandada pelas mulheres e cita um conto mitológico que exemplifica como a sociedade deixou de ser matriarcal para de tornar matriarcal.

boa leitura

“O estudo da história da família começa, de fato, em 1861, com o Direito Materno de Bachofen. Nesse livro, o autor formula as seguintes teses: 1 – primitivamente, os seres humanos viveram em promiscuidade sexual; 2 – estas relações excluíam toda possibilidade de estabelecer, com certeza, a paternidade, pelo que a filiação só podia ser contada por linha feminina, segundo o direitomaterno, e isso se deu em todos os povos antigos; 3 – em conseqüência desse fato, as mulheres, como mães, como únicos progenitores conhecidos da javem geração, gozavam de grande apreço e respeito, chegando de acordo com Bachofen, ao domínio feminino absoluto (...)”.

“Dessa maneira, pois para Bachofen, não foi o desenvolvimento das condições reais de existência dos homens, mas o reflexo religioso dessas condições no cérebro deles, o que determinou as transformações históricas na situação social recíproca do homem e da mulher. Dentro de seu ponto-de-vista, Bachofen interpreta a Oréstia de Ésquilo como um quadro dramático de luta entre o direito materno agonizante e o direito paterno, que nasceu e conseguiu vitória sobre o primeiro, na época das epopéias. Levada por sua paixão por Egisto, seu amante, Clitemnestra mata seu marido Agamenon, quando este regressava da guerra de Tróia; mas Orestes, filho dela e de Agamenon, vinga seu pai, matando a mãe. Isso faz com que ele seja perseguido por Erínias, seres demoníacos que protegem o direito materno, de acordo com o qual matrocídio é o mais grave e inperdoável de todos os crimes. Apolo, no entanto, que, por intermédio de seu oráculo, havia incitado Orestes a matar sua mãe, e Palas Atena, que intervém como juiz (ambas as divindades representam aqui o direito paterno) protegem Orestes. Atena ouve ambas as partes. Todo o litígio está resumido na discussão de um duplo crime ao matar quem era seu marido e pai de seu filho. Por que as Erínias o perseguiam, por que o visavam, em especial, se ela, a morta, tinha sido muito mais culpada? A resposta é surpreendente:

- “Ela não estava unida por vínculos de sangue ao homem que assassinou”.

O assassinato de uma pessoa com a qual não houvesse vinculação de sangue, mesmo que fosse o marido da assassina, era falta que podia ser expiada – e não concernia, absolutamente, as Erínias. A missão delas era a de ounir o homicídio entre consangüíneos, e o pior e mais imperdoável dos crimes segundo o direito materno: matricídio. Nesse ponto, contudo, intervém Apolo, defensor de Orestes, e em seguida Atena submete o caso ao Areópago – o Tribunal do Júri ateniense; há o mesmo número de votos pela condenação e pela absolvição. Então, Atena, como presidente do tribunal, vota em favor de Orestes e o absolve. O direito paterno vence o materno. Os “deuses da jovem geração”, como os chamam as próprias Erínias, são muito mais poderosos que elas, e só lhes resta resignarem-se e, finalmente, também, elas convencidas, porem-se ao serviço do novo estado das coisas”.

(ENGELS, Friedrich – A Origem da família, da propriedade privada e do estado, p.8, RJ, Bertrand Brasil, 1995)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Eduardo Galeano

"A Classe média continua vivendo num estado de impostura, fingindo que cumpre as leis e acredita nelas e simulando ter mais do que tem, mas nunca lhe foi tão difícil cumprir esta abnegada tradição. Está asfixiada pelas dívidas e paralisada pelo pânico, e no pânico cria sues filhos. Pânico de viver, pânico de empobrecer; pânico de perder o emprego, o carro, a casa, as coisas, pânico de não chegar a ter o que se deve ter para se chegar a ser".
p. 20


"(...) killing instinct, o instinto assassino, é uma virtude humana quando serve para que as grandes empresas façam a digestão das pequenas empresas e para que os países fortes devorem os países fracos, mas é prova de bestilidade quando um pobre-diabo sem trabalho sai a buscar comida com uma faca na mão".
p. 06


"Até vinte ou trinta naos passados a pobreza era o fruto da injustiça, denunciada pela esquerda, admitida pelo centro e raras vezes negada pela direita. Mudaram muito os tempos, em tão pouco tempo: agora a pobreza é o justo castigo que a ineficiência merece. A pobreza sempre pode merecer compaixão, mas já não porvoca indignação: há pobres pela lei do jogo ou fatalidade do destino. Tampouco a violência é filha da injustiça. A linguagem dominante, imagens e palavras produzidas em série, atua quase sempre a serviço de um sistema de recompensas e castigos, que concebe a vida como um a impiedosa disputa entre poucos ganhadores e muitos perdedores nascidos para perder. A violência se manisfesta, em geral, como fruto da má conduta de maus perdedores, os numerosos e perigosos inadaptados sociais gerados pelos bairros pobres e pelos países pobres. A violência está em sua natureza. ela corresponde, como a pobreza,à ordem natural, à ordem biológica ou, talvez, zoológica: assim eles são, assim foram e assim serão. A injustiçafonte do direito que perpetua, é hoje mais injusta do que nunca no sul do mundo, no norte também, mas tem pouca ou nenhuma existencia para os grandes meios de comunicação que fabricam a opinião publica em escala universal".
p. 32


"O código moral do fim do milênio não condena a injustiça, condena o fracasso".
p. 33



(De Pernas Pro Ar - A escola do mundo do avesso - Eduardo Galeano - SP - 1999 Ed. LePM)