terça-feira, 6 de novembro de 2007

Eduardo Galeano

"A Classe média continua vivendo num estado de impostura, fingindo que cumpre as leis e acredita nelas e simulando ter mais do que tem, mas nunca lhe foi tão difícil cumprir esta abnegada tradição. Está asfixiada pelas dívidas e paralisada pelo pânico, e no pânico cria sues filhos. Pânico de viver, pânico de empobrecer; pânico de perder o emprego, o carro, a casa, as coisas, pânico de não chegar a ter o que se deve ter para se chegar a ser".
p. 20


"(...) killing instinct, o instinto assassino, é uma virtude humana quando serve para que as grandes empresas façam a digestão das pequenas empresas e para que os países fortes devorem os países fracos, mas é prova de bestilidade quando um pobre-diabo sem trabalho sai a buscar comida com uma faca na mão".
p. 06


"Até vinte ou trinta naos passados a pobreza era o fruto da injustiça, denunciada pela esquerda, admitida pelo centro e raras vezes negada pela direita. Mudaram muito os tempos, em tão pouco tempo: agora a pobreza é o justo castigo que a ineficiência merece. A pobreza sempre pode merecer compaixão, mas já não porvoca indignação: há pobres pela lei do jogo ou fatalidade do destino. Tampouco a violência é filha da injustiça. A linguagem dominante, imagens e palavras produzidas em série, atua quase sempre a serviço de um sistema de recompensas e castigos, que concebe a vida como um a impiedosa disputa entre poucos ganhadores e muitos perdedores nascidos para perder. A violência se manisfesta, em geral, como fruto da má conduta de maus perdedores, os numerosos e perigosos inadaptados sociais gerados pelos bairros pobres e pelos países pobres. A violência está em sua natureza. ela corresponde, como a pobreza,à ordem natural, à ordem biológica ou, talvez, zoológica: assim eles são, assim foram e assim serão. A injustiçafonte do direito que perpetua, é hoje mais injusta do que nunca no sul do mundo, no norte também, mas tem pouca ou nenhuma existencia para os grandes meios de comunicação que fabricam a opinião publica em escala universal".
p. 32


"O código moral do fim do milênio não condena a injustiça, condena o fracasso".
p. 33



(De Pernas Pro Ar - A escola do mundo do avesso - Eduardo Galeano - SP - 1999 Ed. LePM)

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